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Rafael CabralPense nos três objetos sem os quais você nunca sai de casa - suas chaves, sua carteira e seu telefone celular – e lembre: um deles é um poderoso mecanismo de monitoramento, equipado com sensores de todo tipo, e que justamente por isso pode dizer muito sobre você e seus hábitos. Mas, se muitos já lucram explorando sua privacidade – o Facebook, uma empresa de coleta e repasse de dados pessoais disfarçada de rede social, é o maior exemplo –, poucas empresas no mundo se dedicam a criar mecanismos mais complexos, capazes de fazer um uso socialmente significativo desse mar de informações.
É justamente essa a missão da
startup Behav.io, uma empresa recém-criada por ex-alunos do Media Lab do Massachusetts Institute of Technology (MIT) e já premiada com o primeiro lugar – e um cheque de US$ 355 mil – em uma competição da Knight Foundation, uma das principais instituições de estudo de mídia no mundo, como a iniciativa mais inovadora e útil para a área de jornalismo na atualidade.
Interface do serviço, ainda não liberado para o público (Imagem: Divulgação)
Isso porque o projeto se baseia em capturar informações de smartphones – capazes de identificar detalhes sobre luz, som, gravidade, movimento, proximidade, pressão e até campos magnéticos –, cruzá-las com outras fontes e transformá-las em tendências gerais da sociedade ou de grupos específicos.
A ideia surgiu de pesquisas acadêmicas na área da mobilidade e foi concretizada pelos colegas de faculdade Nadah Aharony (ex-desenvolvedor da equipe Android, no Google), Cody Sumter (pesquisador acadêmico de computação e astronomia) e Alan Gardner (empresário e programador), que criaram um aplicativo – integrado com o sistema
Android - que consegue fazer relações complexas entre dados coletados através de tecnologias já presentes em grande parte dos celulares.
"Com o Behav.io, é possível identificar mudanças comportamentais em comunidades e até prever com rapidez e reduzir o dano de desastres ambientais ou epidemias globais", garante Cody Sumter, uma das mentes por trás da iniciativa, em entrevista exclusiva ao
Olhar Digital.
Os fundadores Alan Gardner, Nadav Aharony e Cody Sumter (Imagem: Divulgação)Você saberia dizer o quanto o seu celular diz sobre você, neste exato momento? De acordo com Sumter, a tecnologia desenvolvida para o Behav.io permitiria dizer se você está sentado ou em pé, parado ou andando, se anda a pé ou de carro, a que velocidade se movimenta, onde está e com quem, se está falando e a que altura, se postou algo nas redes sociais, o barulho do ambiente e até informações sobre clima e temperatura.
"Nossa ideia é usar essa tecnologia para capturar dados gerais e com isso entender melhor a sociedade. O computador é bom em identificar desvios de rotina, enquanto o celular, sempre nos nossos bolsos, pode ajudá-lo a silenciosamente capturar informações preciosas e torná-las significativas", explica Sumter.
O Behav.io é baseado no Funf, um software livre desenvolvido no MIT, e pode ajudar outros cientistas na realização de experimentos similares e novos, que possam conectar e fazer um melhor uso dessas habilidades presentes em nossos telefones.
Entenda melhor lendo a entrevista completa com o pesquisador:
Que tipo de informações vocês coletam através de um smartphone?
Existem dúzias de sinais que os nossos celulares podem acessar e que podemos usar: coisas como localização, movimento, atividade de aplicativos, redes de rádio e dispositivos próximos, para dizer apenas alguns. No entanto, esses são sinais simples, que só fazem sentido quando os colocamos juntos e estabelecemos relações. Assim podemos identificar tendências e mudanças comportamentais de indivíduos e comunidades inteiras.
Imagine uma câmara que pudesse filmar a sociedade inteira. E se pudéssemos, com registro de permissão, exibir quase todas as facetas do comportamento, comunicação e interação social entre os seus membros, identificando como eles vivem sua vida cotidiana? Isso nos daria informações valiosas sobre a humanidade - como as sociedades funcionam, como os relacionamentos se formam no mundo real, mudanças ao longo do tempo e como o comportamento e as escolhas se espalham de uma pessoa para outra.
Quando e por quais motivos vocês decidiram criar o Behav.io?
A tecnologia por trás do Behav.io surgiu no Media Lab do Massachussets Institute of Technology (MIT), como parte de uma pesquisa que buscava entender a dinâmica comportamental e social das pessoas. Fomos muito inspirados pela área médica, onde os chamados testes de fMRI (ressonância magnética) abriram espaço para um maior entendimento de como pensamos, agimos e de como nosso cérebro funciona como um todo. Queríamos uma ferramenta que possibilitasse algo semelhante, mas que fizesse o mesmo por comunidades inteiras: um fMRI social.
Então criamos uma ferramenta que agrega dados de telefones celulares e de outras fontes, os relaciona e então cria a imagem virtual de todo um grupo. Oficializamos a empresa recentemente, e tivemos um ótimo começo ao ganhar prêmios como o Knight News Challenge – principal premiação de inovação no jornalismo – e o SXSW Accelerator Award, um concurso que destaca as startups mais promissoras dos EUA.
Conte um pouco sobre as pesquisas acadêmicas que influenciaram na concepção do aplicativo.
Usamos como base para a criação do Behav.io um experimento de campo em que monitoramos 150 voluntários da mesma comunidade residencial por 15 meses. Esse estudo acabou se tornando um dos maiores experimentos com tecnologia móvel na academia.
Coletamos dados de mais de 25 sensores presentes nos telefones celulares, incluindo localização, movimento, proximidade de sinais Bluetooth, registros de comunicação, uso de aplicativos, arquivamento de informações e mais. Além disso, usamos informações auxiliares como atividades no Facebook e também fizemos os participantes responderem questionários diários sobre saúde, humor, nível de stress e por aí vai. Nossos objetivos mais amplos incluem a investigação de mecanismos sociais relacionados ao comportamento e a tomada de decisões, juntamente com a concepção de novas ferramentas que ajudem as pessoas a tomarem melhores decisões.
O software criado por vocês ficou em primeiro lugar no Knight News Challenge, o principal prêmio norte-americano de inovação na área de mídia. De que forma o programa pode ajudar os jornalistas?
O jornalismo é uma área muito interessante de inovação e a Knight Foundation vem tentando descobrir com a tecnologia pode ser melhor incorporada às redações. Por isso, a premiação do Behav.io faz sentido. Uma reportagem não precisa ser apenas aquela história coletada pelo repórter, mas pode ser também uma tendência identificada por um software em um grupo de milhares de pessoas.
É possível usar o Behav.io para prever e reduzir o dano de epidemias globais ou desastres ambientais?
Sim. Tome como exemplo o caso do vírus SARS. identificado em Hong Kong em 2003. Em março, diversas pessoas de um complexo de apartamentos ficaram doentes e pararam de ir aos seus trabalhos. Se o Behav.io já existisse, essa tendência poderia ter sido identificada neste ponto, mas na ocasião ninguém notou o surgimento da epidemia até que 50% das pessoas do condomínio parassem no hospital - ou seja, quando a situação já estava fora do controle.
Com um sistema como o nosso, será possível identificar isso muito mais cedo e diminuir o prejuízo causado.
De que maneira vocês pretendem evitar queixas de invasão de privacidade? Por que alguém decidiria liberar todos esses dados privados para a equipe da empresa?
De uma perspectiva tecnológica, nosso sistema foi construído para cumprir com padrões das mais exigentes comunidades científicas, que são bastante cuidadosas quando se trata de privacidade. Isso significa que o software foi desenvolvido com uma série de funções de privacidade embutidas, que permitem que o usuário tenha acesso e total controle dos próprios dados. Além disso, buscamos transparência ao explicar quais dados serão coletados e para que fins. Se o sistema for valorizado pelas pessoas, elas não se incomodarão em liberar os dados que o farão funcionar.