Venda da Nokia marca fim de um ciclo de tecnologia e de negócios

Por Wharrysson Lacerda - em 03/09/2013 às 12h09

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Resumo: Empresa finlandesa deixa o cenário global, numa mudança em grande escala

A Nokia é, sem dúvidas, uma empresa diferente. Sua história tem mais de 148 anos, e remonta ao século 19, quando um engenheiro chamado Fredrik Idestam montou um moinho de extração de celulose, no sudeste finlandês. Alguns anos depois, a empresa mudou seu foco, investindo em produtos de borracha - botas, especificamente. Na fria Finlândia, as botas fizeram sucesso, e a Nokia registrou um crescimento saudável (compatível com uma era pré-globalização e revolução digital). Uma nova grande mudança viria em 1967, quando a empresa se fundiu com a também finlandesa Cable Works. O projeto que trouxe as duas companhias juntas era o de produzir rádios para o exército finlandês. Os rádios evoluíram para o primeiro telefone móvel para automóveis (uma novidade que nós brasileiros nem chegamos a conhecer), o Mobira Senator, lançado em 1982. Já em 1987, a tecnologia GSM foi adotada como padrão pelos países europeus, e a Nokia iniciou seu ciclo de ouro, rapidamente crescendo a participação no novo e pulsante mercado dos celulares. A empresa permaneceria como líder do segmento por nada menos que 14 anos consecutivos. 

Antes do tempo

Por incrível que pareça, um dos problemas que a Nokia enfrentou foi o de trazer para o mercado um produto que estava à frente do tempo. Ainda em 1996, a Nokia lançou seu primeiro smartphone (um aparelho com tela sensível ao toque, que já apostava na integração com redes mais rápidas e conexão com a internet). O problema é que, do outro lado Atlântico, a Motorola lançava mais ou menos ao mesmo tempo sua linha Razr - aparelhos ultra-finos, no formato flip, mas sem qualquer recurso de inteligência. Mas, os Razr eram muito mais baratos, e comeram uma parte importante do mercado da Nokia.
Como consequência, a Nokia decidiu focar em seus próprios telefones de baixo custo, numa estratégia para recuperar a fatia de mercado perdida. O problema é que em 2007 Steve Jobs subiu ao palco do Moscone Center em São Franciso e anunciou o iPhone. A partir daí, o mundo finalmente entendeu o conceito de um smartphone e tanto Nokia quanto Motorola se viram em posição fragilizada em relação à nova entrante no mercado - isso apesar da finlandesa ter colocado seu primeiro smartphone no mercado quase 10 anos antes.

Velocidade implacável

Depois de 2007, a revolução digital, que já girava a alta velocidade, ganhou impulso ainda maior, com a explosão de vendas de iPhones e, posteriormente de iPads; com a criação de um mercado inteiramente novo - o de aplicativos móveis, e com a chegada das mídias sociais, que reforçaram ainda mais os usos dos celulares inteligentes. A Nokia (assim como a Motorola) tentou arregaçar as mangas e correr atrás do prejuízo - mas já era tarde demais. Apple e, mais tarde, Samsung e todo o ecossistema Google / Android já haviam modificado a relação de forças no mercado.

Em 2010, Stephen Elop assumiu a Nokia e promoveu drásticos cortes na estrutura da empresa. Eles foram da venda da sede da companhia, em Espoo, na Finlândia, até o abandono do sistema Symbian, que controlou os aparelhos top de linha da empresa durante vários anos. Ao final, Elop (que saiu da Microsoft para assumir a Nokia) articulou a adoção do Windows Phone como sistema operacional dos smartphones da Nokia e finalizou a parceria com a operação de compra. 

Chama a atenção que as duas protagonistas do mundo celular nas décadas de 1980 e 1990 tiveram destino similar: a venda. Ironicamente, o Google pagou bem mais pela Motorola: 12,5 bilhões de dólares, contra os 7,2 bilhões desembolsados pela Microsoft pela Nokia. Aliás, a Nokia acabou vendida por menos do que custou o Skype, que exigiu o desembolso de 8,5 bilhões de dólares por parte de Steve Ballmer. 

A nova união tem um primeiro objetivo concreto: conseguir se consolidar no terceiro lugar no ecossistema de smartphones (Android ocupa a liderança, à frente do iOS da Apple). Para a Nokia, é a salvação de um negócio que registrava vendas e lucratividade em queda. Para a Microsoft, uma aposta ousada que a coloca no mesmo ringue que Apple e Google - ainda que com armas mais fracas. Para a Finlândia é a perda de sua principal marca no cenário global. 



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