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Conheça o ciborgue que vê as cores através dos sons

Irlandês reconhecido como o primeiro ciborgue do planeta possui um olho biônico que permite enxergar 360 microtons pela sonoridade deles
10 de Fevereiro de 2012 | 10:27h
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Neil Harbisson (Divulgação)
Neil Harbisson
Caio Carvalho

Imagine enxergar o mundo como as lentes de um filme antigo, todo em preto em branco. Por mais fictício que isto pareça, pessoas ao redor do planeta sofrem de acromatopsia, uma síndrome que atinge justamente a capacidade de enxergar e diferenciar as cores, visualizando apenas tons de cinza. Isto é considerado o pior estágio do daltonismo.

Apesar da medicina ter criado tratamentos para amenizar esse problema, nunca houve algo tão eficaz quanto o que o irlandês Neil Harbisson, hoje com 27 anos, fez. Harbisson era cego para as cores e se submeteu a enxergar o mundo ao seu redor de uma forma mais colorida. Ele passou a usar um equipamento que permite ver as cores através do som, ou melhor, ouvi-las. Neil leva consigo um pequeno dispositivo eletrônico conectado aos ossos de seu corpo, que funciona como uma espécie de olho biônico, mais conhecido como eyeborg. Com isso, Neil se tornou o primeiro ciborgue reconhecido do planeta.

O rapaz tem acromatopsia desde criança e, para ele, foi um choque descobrir o que essa doença significadava, pois em sua mente ele apenas confundia as cores. "Saber que eu tinha a doença criou um efeito especial em mim. A princípio eu não gostei do fato de não conseguir visualizá-las, mas não por um problema pessoal e sim porque o resto do mundo as vê. Você querendo ou não, é impossível ignorar as cores, mesmo que você não as enxergue."

Mesmo com o problema, alguns anos depois, Neil decidiu cursar Artes Visuais, com a diferença de que só usou preto e branco como tonalidades enquanto estudou na Dartington College of Arts (Inglaterra), em 2001. Foi a partir daí que o futuro ciborgue começou a entender e a estudar melhor as cores e trabalhar com algo que não pode ver e que talvez sequer exista. "Como você não pode ver e não existe cor alguma à sua frente, logo você duvida de sua existência", disse.

Em outubro de 2003, Neil foi a uma feira tecnológica para assistir uma palestra sobre extensões sensoriais cibernéticas, conduzida pelo professor Adam Montandon. Um ano depois, os dois desenvolveram o projeto de uma webcam que transformava as cores em notas musicais. Pela primeira vez na vida, ele conseguiu perceber as tonalidades coloridas por meio dos sons.

A primeira versão do eyeborg era um tanto incômoda ao irlandês, que tinha de carregar um computador de cinco quilos e fones de ouvido para conseguir escutar e interpretar os sons das cores (ele recebia as notas musicais apenas por um dos ouvidos). Já no segundo modelo do olho biônico, o PC que Neil levava reduziu seu peso para três quilos. Por fim, na terceira e última versão, o ciborgue trocou os fones por duas entradas de áudio e interligou os estímulos sonoros diretamente em seu crânio, lpois, segundo ele, os ossos são capazes de propagar os sons.

Conectado às funções de seu cérebro, o olho biônico reconhece as cores transformando-as em diferentes frequências sonoras, o que envolve uma combinação de tom, saturação e luz. Neil explicou que os níveis de saturação mais altos transmitem níveis de volume mais altos e vice-versa. Hoje, seu eyeborg consegue reproduzir 360 microtons sonoros que correspondem a 360 tons de cores.

"Aquela extensão [o eyeborg] se tornou uma parte do meu corpo e nunca mais parei de usá-lo. Em um certo momento, senti que meu cérebro e o software do aparelho começaram a se conectar, pois já não conseguia separar um do outro. Isso ficou mais nítido ainda quando me deitei para dormir e tive um sonho com sons eletrônicos que eram cores. Foi aí que o meu organismo e o dispositivo cibernético se uniram", explicou. 

Após se aprofundar no entendimento das cores, Neil Harbisson iniciou um processo para relacioná-las ainda mais com os sons e decidiu estudar música. Tempo depois disso, percebeu que os humanos sem acromatopsia não conseguem identificar as cores em sua totalidade. A escala de tons do ciborgue permite que ele "enxergue" além do olho convencional como em infravermelho e em ultravioleta - com exceção das cores brancas, pretas e cinzas, que não emitem sons, mas que podem ser vistas com seu olho humano.

Com isso, o irlandês encontrou maneiras divertidas de "brincar" com o olho biônico. "Uma grande mudança para mim foi no alimento. Você pode combinar diversos tipos em um prato para que eles soem bem e você ouça sua música favorita na comida. Imagine o quão emocionante é, para mim, caminhar em um supermercado! Se as saladas soassem como Justin Bieber, as crianças comeriam mais vegetais".

Neil também também gosta de viajar para escanear as cidades. Para ele, que já percorreu mais de quarenta capitais pelo mundo, elas não são cinzas. Lisboa, por exemplo, é turqueza e Londres é vermelha e amarela. Além disso, o ciborgue "ouve" quadros. "O que eu mais gosto de fazer é pintar as cores das músicas de Mozart e Beethoven. E também adoro ouvir rostos. Quando olho para alguém, não vejo sua aparência ou ouço apenas sua fala, mas também o que sua face está dizendo através das notas [cada rosto tem geralmente quatro ou cinco notas dominantes]. Assim, consigo montar um 'concerto de faces' ao adicionar camadas e camadas desses rostos até criar uma esfera sonora", disse.

O mais interessante nesse aspecto é que, ao transformar as cores em sons, Neil percebeu que não existem pessoas brancas ou negras, mas sim tonalidades de laranja um pouco mais claras do que outras. A beleza, segundo ele, é diferente quando você enxerga as cores, pois o que é considerado feio, a princípio, pode soar de uma maneira bastante atraente.








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