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Banco de dados e privacidade: para onde vão os dados que fornecemos em lojas, bares ou baladas?

Estabelecimentos e sites sabem mais sobre seus hábitos do que você imagina. Mas o que eles fazem com essas informações e onde elas podem parar?
13 de Março de 2012 | 00:05h


Privacidade
Stephanie Kohn

Quando você chega na balada, qual é a primeira coisa que faz? Se você respondeu pegar um drinque, errou. Para entrar em alguma casa noturna, primeiro você deve fornecer alguns dados pessoais para pegar sua comanda e, então, poder se dirigir ao bar. Em uma loja não é muito diferente. Na hora de pagar, os vendedores sempre nos bombardeiam com perguntas como nome completo, CPF, RG, telefone, endereço...

Todos esses dados vão diretamente para softwares de Gestão de Relacionamento com o Cliente (CRM). E é por meio desses programas que os estabelecimentos começam a te conhecer e descobrir do que gosta. Com esse arsenal de informações, fica fácil dos donos dos estabelecimentos saberem a sua idade, local que você mora, dias que você costuma sair e até que bebida mais gosta. Isso sem falar no seu email, telefone, rede social e média de gasto no local.

No caso de uma balada, por exemplo, é necessário que você forneça algum dado pessoal para que o estabelecimento tenha um link com a sua pessoa. Isso porque o número da comanda precisa estar ligado ao cliente. Neste caso, segundo Fábio Nardelli, diretor comercial da OZ Technology, empresa por trás do software de gerenciamento E-poc, esses dados são essenciais, pois se alguém perde a comanda, só será possível saber de quem ela é se o cartão estiver linkado com alguma informação, como RG ou CPF. Fora isso, Fábio lembra que ainda há a necessidade de checar os documentos, apenas para saber se a pessoa tem idade suficiente para freqüentar o local.

Já as demais informações servem apenas para que a casa noturna saiba mais sobre você. O software armazena na memória quais bebidas você consumiu em que dia da semana e em quais horários, e descobre que tipo de cliente esteve presente naquela noite. "Com isso nas mãos, o dono da balada vai poder negociar melhor com o patrocinador. Ele vai saber que na quinta o pessoal sempre bebe mais cerveja, por exemplo. Por isso, não vale a pena fazer uma festa de uma marca de vodka neste dia", comenta.

Fábio ainda explica que em um restaurante ou bar, não se faz necessário linkar nenhuma informação com a pessoa, pois os dados de consumo dos clientes podem ser facilmente ligados às mesas. O mesmo acontece com as lojas. As vendas das roupas não precisam estar associadas a uma pessoa, pois as peças estão linkadas com o estoque. Ou seja, todas as informações pedidas a mais são por pura curiosidade dos estabelecimentos em conhecer seu público. Portanto, tenha cuidado com o que você vai informar.

Mercado dos mailings

Atualmente existem algumas empresas que acabam fornecendo dados de seus clientes para terceiros e, apesar dessa prática não ser considerada crime no Brasil, ela é considerada antiética e pode ser revertida. Segundo a advogada Gisele Truzzi, especialista em direito digital, o uso dessas informações colhidas para outras finalidades fere o Código de Ética e o Código de Defesa do Consumidor e, por isso, você pode pedir para que seus dados sejam apagados desses softwares imediatamente. "Em casos extremos, se a pessoa perceber que as informações armazenadas estão ferindo sua privacidade ou que as perguntas estão sendo muito invasivas, é possível mover uma ação contra o estabelecimento", explica a advogada.

De acordo com Gisele, os dados mais comuns e, praticamente, inevitáveis de serem fornecidos, são o nome completo e celular, apenas para ter um contato. Já o RG ou CPF devem constar no seu cadastro em situações mais específicas como em compras parceladas, casas noturnas ou para adição da Nota Fiscal no CPF. Já o endereço, telefone fixo ou placa de carro merecem ainda mais atenção. O ideal é sempre se lembrar qual é a finalidade do estabelecimento e tentar identificar o que é primordial que eles saibam sobre você.

Mas, é comum recebermos emails e ligações de locais que nunca nem conhecemos. E isso é a prova de que seus dados valem ouro e podem circular de mãos em mãos. Um especialista em segurança, que não quis se identificar, diz que também desconhece a prática de venda de mailings de empresa para empresa. Porém, ele explica que é comum encontrar hackers que invadem sites e roubam os dados dos clientes cadastrados. "Existem sites que vendem mailings prontos e camelôs que vendem CDs com as listas. Em alguns casos, o cara que compra nem sabe a procedência dessas informações e, em outros, o próprio cliente é que escolheu o mailing por segmentação", afirma o especialista. "Já no caso dos hackers, alguns deles nem se expõem e só vendem as informações por indicação de outros clientes, pois este é um mercado bastante arriscado", conclui.

O comércio de informações pode ser feito de duas maneiras: a primeira é com a venda do mailing completo, e a segunda é por disparos de emails. Neste último caso, os dados das pessoas não ficam com o comprador, pois é o próprio hacker quem envia as mensagens. Portanto, um disparo, normalmente, é mais barato. Raul (nome fictício) conseguiu um mailing com 50 mil nomes e pagou R$ 300 pelo disparo. "Eu pude escolher o sexo, cidade e até o gosto musical. Na verdade, a segmentação depende dos campos que foram preenchidos pelas pessoas no cadastro original", diz.

Isso significa que os sites que pedem muitos dados pessoais acabam conseguindo um mailing mais completo. Raul lembra que, na época da sua negociação, o vendedor enviou um email com o nome de diversos sites famosos e ele pôde escolher quais iriam compor o seu mailing. Segundo a advogada, a venda de mailing não autorizada para terceiros pode ser caracterizada como crime se a pessoa possui acesso ao banco de dados por conta de sua função e, em virtude disso, repassa tais dados restritos a terceiros. "Dessa forma, ele poderá incorrer no crime de Violação do segredo profissional ou Violação de sigilo funcional. Já se o indivíduo, desvinculado de qualquer cargo ou função, subtrair banco de dados de terceiros, pode ser caracterizado como crime de furto", conclui Gisele.

Quer dar sua opinião? Escreva nos comentários abaixo o que você acha dessa prática de venda de mailing ou se já sofreu por ter fornecido dados demais para certos estabelecimentos.



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